Publicado por: Elektro | 27 Fevereiro 2009

Internar?

Quando entrámos na enfermaria o seu aspecto chamou logo a atenção. Doente grande, muito vermelha dos pés à cabeça, obesidade centrípeta (gordura predominante na cabeça e tronco com membros emagrecidos), dificuldade nítida na mobilização. Era o primeiro dia de estágio, primeira visita à enfermaria, mas todos percebemos que esta mulher inspirava cuidados maiores.

Tinha sido internada para tratamento de presumível infecção grave dos tecidos moles da perna direita. No entanto, como se veio a verificar, este era o menor dos problemas dela. Doente diagnosticada há mais de 30 anos com penfigo benigno familiar, doença auto-imune que afecta a pele e mucosas, e que por esse motivo fez durante anos tratamento com corticóides.
Quando falei com a senhora, ela contou-me a sua história e dizia com naturalidade que estava ali porque tinha caido e ferido os joelhos. É verdade que tinha hematomas nos joelhos e a ferida da perna poderá ter surgido como consequência da queda. No entanto, o facto de estar internada, a pouca mobilidade e a doença cutânea, viriam a ser os factores determinantes.

Ao longo da semana a ferida não estava a ter uma boa evolução, mas pior que isso era o facto de a pele se ter começado a assemelhar a algo como papel vegetal fino. Ou seja, as manipulações mínimas necessárias por parte da enfermagem e do pessoal médico começaram a provocar uma quantidade considerável de lesões cutâneas, algumas delas com dimensão importante.

O quadro continuou a agravar-se. Na semana seguinte, a senhora acordou uma manhã sem conseguir falar. Estava consciente e tinha tomado o pequeno almoço sozinha, no entanto, havia uma ausência de fala tão suspeita como preocupante. Foi um sinal de gravidade que representou o largar de uma bola de neve do topo de uma montanha. Rapidamente o seu estado declinou e a senhora acabou por falecer poucas horas depois.

Comunicar o acontecido ao filho, o declinio do estado da mãe, as manobras e procedimentos realizados no sentido de o evitar, aquilo que se tinha conseguido fazer e o que não tinha resultado, nunca em tempo algum será fácil, ainda para mais quando um dia antes a senhora estava consciente e aos olhos da familia relativamente bem. Terminada a explicação o filho perguntou: “e há mais algum exame que possamos fazer?” A comunição não é eficaz quando há perturbação nalgum dos seus elementos, emissor, canal ou receptor.

Este caso chama-me a atenção, de forma dramática, para o grande risco que é o internamento! O hospital é dos locais mais perigosos em termos infecciosos. A presença de muitos microorganismos em pessoas doentes, antibióticos, enfermarias comunitárias, múltiplos vectores de transmissão e um continuo de todos estes factores ao longo do tempo. Tudo isto resulta em agentes infecciosos em quantidade e qualidade! Obviamente o pessoal da saúde tudo faz para reduzir estes perigos ao mínimo, no entanto, há sempre uma flora microbiana inevitável e, regra geral, tendencialmente resistente! Resultado, um internamente acarreta algum risco, ainda maior se as nossas defesas estiverem de alguma forma comprometidas.

Era o caso desta senhora, a sua barreira mecanica, a pele, estava comprometida. Na maior parte do tempo nem lhe damos grande valor ou importância, mas a pele é o garante principal da homeostasia e assépcia do ecossistema que somos cada um de nós. Esta doente tinha muitas quebras, derrocadas e descontinuidades na muralha do seu castelo, com um resultado que se poderá dizer algo inevitável. Com tantas portas de entrada, mais tarde ou mais cedo, algum inimigo entra e incendeia tudo o que encontra pela frente, deitando por terra todos os esforços que se possam fazer a partir daí para evitar a derrocada final da nossa fortaleza…

Este caso é exemplo da importância de estar atento a todo o contexto do doente quando se propõe o seu internamento.

Penfigo @ManualMerck


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