Publicado por: Elektro | 5 Março 2009

Vê um, Faz um, Ensina um

… fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão …

Juramento Hipócrates

Na passada terça-feira, surgiu-me inesperadamente, uma oportunidade e um dever que se transformou num momento único de inspiração e de motivação.
A minha tutora ausentou-se para o Congresso Nacional de Medicina Interna e delegou-me a orientação das suas duas turmas de alunos de Medicina do 3ºano. Apenas me disse para os conduzir a um doente junto ao qual deveriam colher a sua história clínica. Não mais pensei no assunto até tê-los à minha frente.
Foi um momento que se transcendeu por si mesmo. Reagi espontaneamente, sem nada ter planeado. A conversa surgiu fluida e fui-me surpreendendo enquanto falava com eles…

O curso de Medicina é composto por 3 anos de formação em ciências básicas da saúde, seguidos de mais 3 anos de formação clínica, num total de 6 anos. Na minha opinião a prática clínica devia estar presente desde o primeiro dia do curso, mas assim não o é (pelo menos por enquanto).
Tendo “marrado” q.b. durante os 3 primeiros anos, nos calhamaços da anatomia, fisiologia, microbiologia, farmacologia e tantas outras cadeiras, os anos que se seguem, sendo anos clínicos, apresentam-se proporcionalmente muito menos teóricos. Isto levou-me a sentir, algo inconscientemente, que estes últimos anos têm sido uma especie de passeio pelos hospitais. Para este sentimento, muito contribuiram os excessivos estágios observacionais e a pouca “mão-na-massa” que nos vão permitindo. A verdade é que (apesar de ainda ser um bocadinho prematuro poder concluir uma vez que vou a meio do 6 ano) isto parece ser um caminho necessário e um método sólido de criar novos médicos, que parece ter vindo a funcionar até agora. Prova disso é que o modelo se mantém insistentemente em vigor e os médicos portugueses continuam a ser reconhecidos como bons internacionalmente.

Talvez pelo meu percursso pela engenharia, com outra dinâmica e objectivos. Estes últimos anos de licenciatura, têm me parecido um processo lento e arrastado de formação. Vou percebendo que segundo a perspectiva dos nossos mentores, a filosofia da formação do médico é uma formação da maneira de estar, dos comportamentos, da personalidade, uma formação de vida! Ao convivermos diariamente com médicos, nos seus diversos contextos, vamos tendo hipótese de ir bebendo, gota-a-gota, aquilo que se vai tornando a nossa essência como futuros médicos.

Constatei isto quando, ao falar com os meus colegas de curso, com 3 anos de diferença (que se traduzem essencialmente em clínica). Percebi que o fosso é bastante grande, para não dizer enorme. É natural, eles só agora estão a começar a frequentar todo um mundo novo. A conhecer as enfermarias que são um ecossistema muito especial, com todos os seus equipamentos, preceitos e, fundamentalmente, com um grupo de profissionais especializados que mais do que em equipa interagem em comunidade: enfermeiros, auxiliares de acção médica, pessoal da limpeza, administrativos, assistentes sociais, outro pessoal da saúde e naturalmente médicos! Todas estas pessoas convivem no dia-a-dia existindo relações profissionais e humanas de muitos anos. Todo este ambiente é novo e único. Qualquer pessoa que entre nele precisa de o conhecer e adaptar-se a ele. Para mim que já passei por mais de 20 estágios em locais e com pessoas diferentes, o processo de adaptação já vai sendo natural, sendo, no entanto, cada estágio uma experiência nova e única, como únicas são as pessoas que nele encontro.

Foi um momento de realização!
Perceber através das conversas que tive com os meus colegas do 3 ano que inconscientemente tenho vindo a crescer e aumentar as minhas capacidades como médico. Capacidades não só técnicas, mas também humanas. Aperceber-me das limitações que tenho ao ser interpelado por eles, não me fez sentir frustrado, antes serviu-me de motivação para ir procurar e descobrir as respostas que me faltaram.

No ano passado, no estágio de cirurgia geral, cruzei-me com um interno do ano comum que me lançou a frase “vê um, faz um, ensina um”. Ter tido a necessidade de ensinar, fez-me ver que começo a estar apto para completar esta tríade mais frequentemente, ou seja, vou sendo, pouco a pouco, cada vez mais médico.

Juramento Hipócrates @wikipedia


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