Publicado por: Elektro | 24 Abril 2009

Aprender a Ser Médico

Com a chegada do estágio de Medicina, ambicionava integrar finalmente uma equipa a tempo inteiro, durante 2 meses e meio, com dedicação total. Poder acompanhar doentes dia após dia e avaliar a sua evolução. Poder ir pondo em prática a teoria de forma estruturada e apoiada. Esta é a minha interpretação de um estágio profissionalizante. Não foi isto que se passou.

Fomos bem recebidos no primeiro dia e todas as portas abertas para o início do estágio. De seguida levaram-nos a conhecer o serviço. Aos poucos o grupo foi diminuindo à medida que iamos sendo apresentados e distribuidos pelos respectivos tutores. Uma vez na enfermaria, fui apresentado aos restantes elementos médicos, conheci a enfermeira chefe e tive direito a uma visita guiada pelas diversas salas da enfermaria. Os dados estavam lançados.

Nos dias seguintes, pela manhã, eram distribuidos os doentes e mãos à obra. Aos poucos fui conhecendo melhor a equipa médica, de enfermagem, técnicos laboratoriais e restante pessoal da enfermaria. Ganhei autonomia para ver os doentes que me eram atribuidos. Escrito o diário, aguardava a oportunidade de o debater com a tutora ou alguém mais graduado. Dava a minha opinião sobre o caso, exames complementares e terapêutica. A meio da manhã o dia acabava. Via algum outro doente da enfermaria, o processo, os exames, a terapêutica instituida. Fui me apercebendo que apesar de trabalhar em equipa estava só na minha aprendizagem. “A vida de médico é uma vida solitária”. Estranhei. Há especialidades em que o isolamento profissional é significativo, mas não me parecia dever ser, de todo, o caso da medicina interna.

Os dias foram passando e fui tentando realizar mais tarefas médicas com autonomia. Os entraves foram surgindo. Uma dificuldade em comunicar e delegar tarefas aos mais novos, menos conhecedores, menos experientes, mas muito mais ávidos em aprender, crescer e poder ser úteis aos seus futuros pares. Naturalmente aproveitava todas as hipóteses de ver e realizar procedimentos e técnicas que decorriam à minha volta. Electrocardiogramas, gasimetrias, punções venosas, colheitas de material biológico, administração de oxigenioterapia e muitas outros.

Certo dia, academicamente, foi me sugerido que fizesse a terapêutica para um doente num papel, sem consultar a terapêutica que ele fazia actualmente. Surgiram-me algumas dúvidas que procurei esclarecer. “Quem faz uma boa terapêutica, faz assim.” Construtivo. Finalmente por volta da terceira semana, por iniciativa própria, ajustei a terapêutica do doente que observei nesse dia e submeti a aprovação do tutor. “Tens de fazer a tua terapêutica, num papel, sem consultar o processo.” Senti-me estagnar no tempo. É verdade que não sou perito em terapêutica. É certo que nas primeiras tentativas as falhas surgem, mas seria aí que o valor de tutor se faria sentir. Na correcção construtiva. No reforço dos bons raciocínios. “Eu só digo o que está mal. O que está bem não é preciso dizer.”

Começaram a definir-se limites à minha actuação que se mostravam difíceis de vencer. A falta de estímulo e a desmotivação foram se instalando. Passo-a-passo de forma indelével. Quase baixei os braços. Mas o estágio era longo, valia a pena lutar pelas últimas semanas! Mudei o foco. Não somos todos iguais. É essa a força de uma equipa. Aos poucos fui-me apoiando em quem me dava uma resposta empática, um estímulo construtivo e me fazia sentir útil e adequado no meu trabalho de aprendiz de médico. Isto permitiu que as semanas seguintes fossem correndo de forma mais produtiva. Mas uma estucada funda na motivação e ambições tinha já sido dada. O objectivo era agora minimizar os danos. Retirar alguma coisa de bom dos dias restantes e dos doentes observados. No entanto, o potencial e objectivos iniciais foram gorados e uma excelente oportunidade parcialmente desperdiçada.

O que sinto. Que houve uma falta de sinergia entre tutor e aluno. Porquê? Incompatibilidade de personalidades? Pode ser. Falta de motivação para ensinar, alguma. Falta de motivação para a profissão que ensina, é o que sinto mais certo. “O que eu não dava para não estar aqui!”

Apesar deste contexto, graças à restante equipa médica, foi-me possível tirar proveito do estágio e dos dias passados na enfermaria. As rotinas de enfermaria que se criam, o à vontade com que se fala com os doentes, com que se examina e avalia o seu estado físico e mental. O contacto continuado com doenças frequentes e as suas diferentes matizes. Os casos mais graves, por vezes fatais. Os casos graves que nos surpreendem com uma evoluação positiva. Toda uma série de experiências só possíveis num estágio mais longo como este.


Responses

  1. ameii aprendii mtoo !!

  2. eu gostei
    muito


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