Publicado por: Elektro | 22 Julho 2009

Três Histórias Cirúrgicas

Sra. Abelha, a incerteza.

Esta doente foi transferida do serviço de medicina do Hospital de Sta Marta, por um quadro de obstrução intestinal não esclarecida. Alguns dias depois foi operada de urgência a uma colecistite crónica agudizada (inflamação da vesícula). Nessa altura procedeu-se também à exploração da cavidade abdominal e tentativa de esclarecimento cirúrgico da estenose duodenal (a referida obstrução intestinal), no entanto, macroscopicamente não foi possível chegar a qualquer conclusão, apenas se observando invasão objectiva do retroperitoneu (região posterior do abdómem), órgãos genitais pélvicos e bexiga. Invasão presumivelmente por cancro. A análise microscópica das amostras de tecido recolhidas não foi esclarecedoura da origem da invasão. Entretanto a doente desenvolveu um quadro de icterícia (cor amarela da pele por acumulação de pigmentos hepáticos) com agravamento progressivo ao longo dos dias. Até ao fim do estágio que realizei, ainda não tinha sido possível resolver a obstrução das vias biliares que se sabia estar na origem da icterícia.

Um caso complicado de cancro pouco comum, com invasão extensa, em doente VIH positiva, ou seja, imunologicamente debilitada. Nesta circunstância a cura é impossível, tornando-se muito importantes os cuidados paliativos, procurando manter a dignidade e qualidade de vida da doente. Conformada com o seu diagnóstico, ambiciona ir para a sua casa, voltar para a sua vida, não querendo ficar internada “sem prazo”, como ela dizia. A resposta e o esclarecimento demoravam em chegar. Soube, meses depois, que a Sra. Abelha chegou a ir a casa, durante um fim-de-semana, para estar com a família. No entanto, o seu estado clínico obrigou-a a regressar ao hospital, onde acabou por falecer.

A vida humana mesmo quando em situações com pouca esperança deve ser salvaguardada e, em simultâneo, a vontade do ser humano protegida. Será o internamento sem fim à vista humano? Têm a pessoa o direito de decidir ir para casa quando a sua vida está em risco?

Sr. Leão, não há duas sem três.

E que terceira!… Este doente foi operado a uma neoplasia gástrica em 2000 e foi novamente operado a uma neoplasia distinta do cólon ascendente em 2004. Em Setembro 2008, dirigiu-se à consulta de cirurgia por dilatação localizada do abdómen e uma impressão tipo moínha na mesma região. Depois de ter feito alguns exames, decidiu-se operar, o que aconteceu 5 semanas depois. Por essa altura, apresentava um aumento considerável da massa abdominal, ao ponto de esta se ter tornado marcadamente visível. O doente referia-se à massa como o “seu menino” e realmente, se fosse uma gestação, eu diria que estava com um crescimento adequado. O Sr. Leão revelava sempre uma atitude positiva e optimista em relação à sua doença. Quem o visse diria que ia passar umas férias a um hotel de 5 estrela, não ser internado para cirurgia…

A intervenção, tão rara como delicada, correu bem apesar de, nalguns momentos, se ter duvidado se era possível remover a massa. Foram 7h30 no bloco operatório. Foi removida uma massa aproximadamente esférica de 5 quilogramas e cerca de 29cms de diâmetro!

No dia seguinte, parecia que não tinha sido nada com ele. Quando, por altura da alta, se tirou o penso e avaliou a grande cicatriz que percorria o seu abdómen de alto a baixo e também lateralmente para a esquerda, comentou “agora já posso ir à praia”. Contra três cancros, parece que o optimismo e boa disposição são excelentes armas terapêutica!

Sr. Águia, eficácia e sucesso.

Vi o doente pela primeira vez no meu primeiro dia de consulta externa e primeiro dia do estágio de cirurgia. Cinco semanas depois via-o entrar novamente na consulta, desta vez para remover os agrafos da cicatriz mediana que agora apresentava. Doente, diagnosticado com cancro do intestino grosso, foi internado 3 semanas depois, tendo sido operado e o tumor ressecado completamente. Depois da operação, esteve internado durante uma semana sem qualquer complicação. Teve alta curado.

Este caso que contado assim parece simples, mas só o foi porque se actuou rápida e eficazmente! É um bom exemplo de como um hospital público tem a eficiência e celeridade necessárias para dar resposta atempada a casos clínicos graves e potencialmente letais.

Três histórias diferentes, com complexidades e atitudes psicológicas distintas. Cada uma com a sua lição, tanto em termos médicos como humanos.


Responses

  1. Simplesmente brilhante!!!
    Foi com emoção que li estas histórias e continuarei a ler sempre, por tudo o que representam e também para a minha própria formação.
    Felicidades e muita saúde para continuares no caminho do bem.
    Beijinhos
    Mãe

  2. Incrível! Escrevi exactamente sobre estes 3 doentes no meu relatório de cirurgia! Foram os que me marcaram mais! =)

  3. DR.OBRIGADA pelos esclarecimentos,minha mãe de 80 anos foi operada a um tumor onde lhe removeram o pancreas e o baço,sei que para ela vai ser dificil sobreviver,acho que foi quase uma experiencia ,uma cobaia,o lhe fizeram,ela é uma pessoa consciente do que se passa,mas dá-me coragem a mim,foi operada aqui em EVORA


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