Publicado por: Elektro | 31 Agosto 2009

A Arte da Anestesia

“0,1mg Fentanil… 150mg Propofol… 50mg Rocurónio!”
Um ligeiro ardor sobe pelo braço de um jovem rapaz que, passados segundos, está a dormir profundamente…

É assim que, actualmente, começam todas as anestesias gerais. Trata-se da administração endovenosa de fármacos que vão adormecer, relaxar e analgesiar o doente. Estes são os três eixos principais de qualquer anestesia.

Adormecer. Pretendemos baixar o nível de consciência de forma a que a pessoa fique tranquila e o seu organismo menos reactivo aos estímulos da cirurgia, para que esta possa decorrer nas melhores condições.

Relaxar. Este eixo procura tornar flácidos todos os músculos, para que se possa manipular, afastar e actuar sem a resistência constante dos músculos, evitando que se lesionem e proporcionando boas condições à intervenção. Este relaxamento muscular é igualmente importante para que se possa ventilar o doente eficazmente, garantindo um adequado suporte da função respiratória e uma oxigenação mantida de todas as células do organismo.

Analgesiar. Aqui a tónica principal é o conforto da pessoa. A minimização da dor, permite que o doente se mantenha calmo, tenha uma boa experiência (o que poderá evitar traumas e futuros receios) e possa ter uma recuperação fácil e mais rápida. Em termos fisiológicos, também é fulcral uma boa analgesia, uma vez que nos permite controlar os estímulos dolorosos sistémicos que se traduzem em reflexos inconscientes que irão perturbar a normal homeostasia corporal, nomeadamente com variações da frequência cardíaca, pressão arterial e muitas outras respostas ao stress da cirurgia que poderão ser deletérias na recuperação do organismo.

Sendo fulcral o domínio destes três eixos na arte da anestesia, ela não passa apenas por eles, vai muito mais além, envolvendo-se na compreensão profunda e extensa da fisiologia do corpo humano. Durante a manipulação do corpo, o equilibrio normal é perturbado e os mecanismos que regulam as funções biológicas podem sofrer maior ou menor “agressão”, consoante a cirurgia. As principais funções fisiológicas que é importante vigiar são a respiração, a circulação. O funcionamento dos rins e fígado também devem ser tidos em conta, dependendo da intervenção. Assim, actualmente, durante todas as anestesias, os parâmetros destes aparelhos vitais são monitorizados de forma permanente. O engenho do anestesista está em regular e ajustar as perturbações que se manifestam, que antecipa e que prevê possam acontecer de acordo com a cirurgia. Esta actuação é feita de forma suave e na maior parte das vezes o resultado demora alguns segundos ou minutos a manifestar-se, o que se revela um desafio maior para o médico.

Mitos
Quando se fala em anestesia geral, várias perguntas surgem frequentemente “a anestesia geral faz mal ao cérebro?”, “vou perder a memória?”, “vou acordar?” Actualmente a maioria destes medos são infundados.

As lesões cerebrais que podem implicar perda de funções neurológicas e cognitivas (como a memória), tem origem em duas situações: má perfusão sanguínea do cérebro ou depressão excessiva da consciência. Hoje em dia existe tecnologia que nos permite monitorizar em tempo real e com bastante rigor ambas as situações. Conseguimos ter informação constante do nivel de pressão arterial (que se correlaciona directamente com a perfusão cerebral) e do nível de consciência cerebral, o que nos permite manter estas funções em níveis ideais e com lesão mínima ou nula das mesmas. Assim, desde que os cuidados adequados sejam garantidos, a resposta às primeiras duas questões é “não”!

Em relação ao “acordar” a resposta não depende tanto da actuação anestésica, mas mais da actuação cirurgica, em particular no tipo de cirurgia e na sua complexidade (procedimentos e tipo de órgãos envolvidos). Quanto mais vitais os órgãos intervencionados, maior o risco. A prática médica basea-se na experiência acumulada em estudos e evidências clínicas, assim, é sempre equacionado se o procedimento terá mais vantagens ou mais riscos para o doente, só se actuando no primeiro caso. Concluindo, a probabilidade de não acordar naturalmente existe, mas é sempre minimizada.

No final da cirurgia, os gases anestésicos são desligados, os antagonistas são administrados e a pessoa começa a respirar de forma espontânea, acordando progressivamente. Há acordares tranquilos, outros mais agitados, acordares sobressaltados, outros ainda em sonho…

Ao ser estimulado para acordar, o jovem rapaz exclamou estremunhado: “O que estou aqui a fazer!? Eu estava… eu estava na praia!”


Responses

  1. depressão excessiva da consciência?
    Eu tenho alguns problemas com conceitos como consciencia, actividade mental, mente… Que entendes tu por consciencia?
    Bugs

    • Dado o contexto do blog, vou responder com o que a ciência médica entede por consciência.

      Consciência – estado psíquico que permite a um indivíduo compreender o mundo exterior através dos seus sentidos e de tomar conhecimento, a cada instante, da sua própria existência, com tudo o que esta implica. in Dicionário Médico, Climepsi Editores, 3Ed, 2004

      É aceite que as actividades que permitem a consciência estão associadas intrinsecamente à actividade neuronal do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) e sistema nervoso periférico (nervos e sistema autonómico simpático e para-simpático). Na prática considera-se que o nível de consciência está associado directamente à actividade cerebral e actividade reflexa (medula espinhal).

      Assim, por exemplo, numa anestesia geral, hoje em dia, pode-se monitorizar a actividade cerebral através de um sinal simplificado de EEG (electroencefalograma) o que nos permite saber se o doente está mais ou menos vigil. No estado de vigília há tomada de conhecimento e registo em memória das experiências exteriores. É isto que se pretende deprimir durante uma anestesia geral. As pessoas sonham durante as anestesias o que indica actividade cerebral, mas ausência de percepção dos estímulos exteriores.
      Outro exemplo é a definição de “morte cerebral”, tema eticamente delicado, mas que actualmente consiste na verificação de uma série de parâmetros ou a sua ausência, nomeadamente ao nível dos processos cognitivos e dos reflexos.

  2. Não sei responder porque nenhuma pergunta me foi feita.

    Posso dizer que gostei do artigo pelo conhecimento que me trouxe de coisas que ignorava.
    Não fiquei esclarecida dos procedimentos a ter no caso do doente ser alérgico a anestesias.

    • No caso de alguém ser alérgico a um fármaco especifico, que seja utilizado na anestesia, há duas perspectivas.
      Uma vez conhecida uma alergia, o doente, deve ter o cuidado de memorizar ou apontar qual o fármaco que lhe provoca alergia e, de futuro, avisar os médicos que possam administrar-lhe tal substância.
      O médico, deve ter o cuidado de substituir o fármaco, ou, caso tal não seja possível, tomar as devidas precauções para o seu uso. (regra geral é preferível não utilizar o fármaco)


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