Publicado por: Elektro | 1 Dezembro 2009

Acesso à Especialidade

O que fazem, todos os anos, mais de mil jovens médicos fechados em casa ou numa biblioteca durante semanas a fio?

Depois de terminarem um curso de muito estudo, porque passam meses seguidos a estudar pormenores ínfimos de infinitas linhas?

Qual a utilidade de lavrarem mais de 1000 páginas da “bíblia” da medicina interna a eito, sem qualquer integração prática?

Os mais entendidos já perceberam que me refiro à preparação para a Prova Nacional de Seriação (PNS) do Internato Médico, ou seja, o exame de acesso à especialidade, vulgarmente conhecido por “Exame do Harrison”. Para os menos familiarizados, passo a explicar, no contexto actual, a formação médica divide-se em duas partes de um único caminho possível. A primeira o Mestrado (antiga licenciatura) em Medicina, durante 6 anos, seguido do ingresso no Internato Médico para formação de especialidade. Uma vez acabado o curso, só depois de dois anos de exercer medicina tutelada a Ordem dos Médicos reconhece autonomia ao jovem médico. Actualmente a única maneira de ter essa experiência é ingressando no Internato Médico (que inclui a especialização). Ou seja, hoje em dia, depois de acabar o curso, o médico não tem outra hipótese que não seja ingressar numa especialidade.

Não obstante esta “carreira única” também ter muito que se lhe diga, o assunto que vou abordar é o método de selecção dos candidatos à especialidade. Este método consiste na seriação simples (para não dizer simplista) de todos os candidatos através de um único parâmetro, a nota de um exame, a PNS (a média de curso é utilizada para desempate).

Todos os anos há cerca de 1000 candidatos que disputam entre si a melhor posição para poderem ter mais opções de escolha, na derradeira hora que definirá a sua vida.

[pela extensão do assunto, vou dividir o texto em três partes: a prova, a mortificação e a selecção]

A Prova

Ora na PNS está uma boa parte do problema. Trata-se de um exame realizado em duas horas e meia que consiste em 100 perguntas de escolha múltipla, com 5 hipóteses de resposta. Estas perguntas são dividas em 5 grupos de 20, representando cada grupo um tema fulcral da Medicina: cardiologia, pneumologia, gastroenterlogia, nefrologia e hematologia. A bibliografia recomendada para o exame consiste apenas numa linha, “Harrison’s Principles of Internal Medicine”, 17ª edição. Este livro contem cerca de 3000 páginas sobre os principais temas da Medicina e é considerado uma referência mundial na Medicina, em particular durante o ensino pré-graduado do médico (leia-se mestrado). Como qualquer livro de referência é para ser consultado, não para ser utilizado como livro de estudo. Os temas abordados no exame abrangem cerca de 1000 páginas, ou seja, um terço deste livro, que se arrumam em cerca de 20 capítulos por tema. Cada capítulo aborda um grupo de doenças com característica, desde pneumonia, enfarte agudo do miocárdio até doença de Crohn, púrpura de Henoch-Schönlein, indo do tema mais geral, comum e importante, até ao tema mais raro e de interesse quase nulo.

Assim, podemos dizer que cada pergunta do exame pode focar um capítulo e dentro desse capítulo uma doença e dessa doença a pergunta poderá questionar sobre a sua epidemiologia, etiolgia, diagnóstico, exames complementares, terapêutica e prognóstico. Ou seja, de uma pergunta para a seguinte, pode saltar-se da generalidade para o pormenor mais irrisório que aparece perdido num paragrafo mínimo no meio das mil páginas de materia.

Se analisarmos os exames dos últimos anos vemos que as perguntas tendem a dispersar-se por todos os capítulos. Assim, quem estuda para este exame não tem outra solução que não seja estudar todos os capítulos e todas as linhas durante meses a fio, procurando absorver o máximo que pode e que a fisiologia humana permite, com a certeza que muitos dos capítulos serão abordados, mas muitos outros não o serão. É natural que alguns temas fiquem de fora em qualquer teste. O que não é tão comum é a dimensão do “desperdício”, por um lado, e, por outro, o questionar de pormenores de interesse muito questionável para o “médico não especialista”.


Responses

  1. Aguardo ansiosamente as duas partes restantes…


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