Publicado por: Elektro | 24 Janeiro 2010

Vitória

O Sr. Cabouco desde há um mês tinha febre e diarreia que  foram piorando, tendo emagrecido progressivamente. Num dia sentiu-se particularmente mal e dirigiu-se à urgência do hospital à procura de ajuda. Uma avaliação inicial não permitiu esclarecer o que se passava e o Sr. Cabouco foi internado no serviço de gastroenterologia (doenças de todo o tracto digestivo e glândulas anexas) para se tentar descobrir  o que se passava com ele.

O primeiro e fulcral passo para podermos tratar um doente da forma mais adequada é a determinação do diagnóstico certo. Assim, foi feita uma extensa investigação. Foram feitas análises ao sangue, raios x e muitos outros exames de imagem. Foram introduzidos tubos para observar e colher amostras de tecidos. Podemos dizer que o Sr. Cabouco foi “virado do avesso” e um mês depois, avaliado e observado por diversos médicos, ainda não se tinha chegado a nenhuma conclusão. As hipóteses de diagnóstico iniciais foram abandonadas por nenhum exame as ter confirmado. Seguiram-se então as pistas que outros sinais e alterações foram sugerindo. Não sendo certo nenhum diagnóstico, alguns tratamentos foram tentados intuitivamente, para as hipóteses mais plausíveis, no que se designa por uma prova terapêutica, mas nenhum deles conseguia travar o emagrecimento e poucos aliviavam a febre do Sr. Cabouco. Os médicos responsáveis davam a volta à cabeça, pediam conselhos a colegas, procuravam nos livros, mas não se encontrava resposta para o mistério.

Estes casos são os mais desafiantes e ao mesmo tempo os mais desesperantes para o médico. Por um lado é estimulado a pensar, a procurar, a investigar, a estudar e a descobrir a chave para o enigma que tem à sua frente. Por outro lado tem de lidar com o sofrimento da pessoa que conta com o seu auxilio e com a sua suposta capacidade de tratar o mal de que padece em tempo útil.

Os dias foram passando numa vigilância atenta, na expectativa de um sinal que permitisse desfazer o mistério. A força foi deixando o Sr. Cabouco, chegando a um ponto em que já lhe era difícil andar. Nesta altura, apesar de não confirmado concretamente por qualquer exame, este quadro clínico começava a ser muito sugestivo de um determinado diagnóstico. Realizou-se então um exame mais direccionado para essa suspeita e finalmente o mistério foi desfeito e o diagnóstico confirmado!

Como qualquer grupo de pessoas que se esforça por atingir um objectivo, neste momento a equipa médica sente a satisfação de finalmente o ter atingido a meta da sua longa demanda. No entanto, o exame revelou diversos focos de tumor nos ossos o que, neste contexto, dá a certeza de que um tumor primário, desconhecido e de localização incerta, já se tinha disseminado e alastrado por todo o corpo. Diagnóstico final, cancro intratável!

O rejubilar de vitória fica contido pelo peso do diagnóstico.

A vitória do médico é o fim da esperança do doente…


Responses

  1. Gostei muito do artigo. É muito elucidativo e mostra o interesse dos clínicos pela investigação.

    Como leiga no assunto, gostaria de ter sabido o que é suposto fazer para não deixar a situação chegar a estes extremos.

    Parabéns pelo trabalho que é de interesse para todos.

    • Obrigado pelo seu comentário.
      Respondendo à sua pergunta, procurei com este texto dar precisamente uma ideia das situações para as quais o estado da arte Médica ainda não consegue dar uma resposta. Neste caso na fase de diagnóstico. Ou seja, infelizmente não há muito que se pudesse ter feito para evitar chegar a esta situação. Nem sempre se têm resultados concretos suficientemente cedo para poder actuar…
      Há coisas inevitáveis, no entanto, um estilo de vida saudável, com alimentação correcta, exercício físico e bem estar mental, serão mais valias importantes para qualquer pessoa!


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