Publicado por: Elektro | 17 Fevereiro 2010

Palavras q.b.

A comunicação é, naturalmente, um dos vectores fundamentais para uma boa relação médico-doente. O que é simples, uma troca de informação entre duas pessoas, pode tornar-se complicado quando os temas abordados são delicados e com consequências marcantes na vida do doente. A dificuldade está, tão somente, em saber O Que dizer, Quando dizer, Quanto dizer e Como dizer. Traduzindo por miúdos…

O que dizer. O médico é confrontado constantemente com informações importantes sobre o estado de saúde do doente. Vale a pena dizer tudo o que sabe ao doente sobre o seu estado de saúde? Que tem uma infecção, que tem a glicémia elevada, que tem uma discreta insuficiência renal, que o sódio está aumentado… O mais provável é que a maior parte dos doentes não entenda e fique confuso com tanta e tão variada informação. Há também os doentes que não querem saber, que preferem delegar no médico a sua saúde de forma total. Contra isto lutam os novos médicos. Nisto as novas gerações de doentes, regra geral, são mais interessadas, procurando um maior controlo sobre a sua saúde. (Não vivêssemos nós numa sociedade de informação e, por conseguinte, num tempo de gerações da informação.) Se o doente não quer saber, com é que o médico o consegue cativar para o tratamento? Infelizmente não há pílulas miraculosas e os médicos não resolvem tudo. Mas há doentes que actuam como se assim fosse…

Quando dizer. Imaginemos o caso limite de termos de dizer a um doente que tem cancro. Valerá a pena dizê-lo logo que temos um ou dois dados a favor de tal diagnóstico? Ou apenas quando tivermos a certeza? Neste caso extremo, fará mais sentido esperar por mais provas e certezas para depois informar o doente, já sem margem para dúvidas. E quando o diagnóstico não consegue ser uma certeza absoluta? Quando se deve dizer ao doente das suspeitas e do provável diagnóstico? Quando este ainda é apenas uma hipótese? Será que se deve dizer?

Quanto dizer. Assim como a variedade, também a quantidade pode assoberbar o doente. Valerá a pena transmitir todos os dados aos doentes? O mais provável é confundirmos e deixarmos perdidos os doentes que não forem capazes de compreender toda a informação que lhes transmitimos. Se dizemos muito baralhamos, se dizemos pouco, corremos o risco de não envolver e alertar o doente para a sua saúde, correndo ele o risco de ser surpreendido com um desenrolar inesperado do seu estado de saúde.

Como dizer. A forma como se diz é tão mais importante, quanto mais crítica é essa informação. Dizer a um doente que tem pneumonia e que deverá fazer antibiótico durante sete dias pode ser dito na agitação de um serviço de urgência, no meio de pessoas a passar atarefadas, doentes a gemer de dor e de muitos doentes exasperados pela longa espera. Por outro lado, dizer a alguém que tem uma doença fatal, reduzindo-lhe a esperança de vida de vários anos para alguns meses, não pode obviamente ser feito no meio deste rebuliço e com a mesma celeridade.

Todas estas questões surgem e revolvem na cabeça do médico, de forma mais ou menos consciente, sempre que fala com um doente, qualquer que seja o contexto. A habilidade do médico está em saber adequar o discurso, na sua forma e conteúdo, ao receptor, o doente, ao seu grau de diferenciação, ao seu estado de humor, ao estímulo que necessita para enfrentar o eventual problema de saúde que surge no seu percurso de vida.

A Arte da Medicina está na habilidade de escolher as palavras certas, no momento certo, e dizê-las da forma certa. Nem de mais, nem de menos… q.b.


Responses

  1. Fala uma leiga na matéria, mas também creio que o doseamento das palavras é um aspecto essencial, mas não nos devemos esquecer que o doente merece sempre a verdade. Tudo depende é da maneira como a verdade é transmitida. Aí o papel do médico é insubstituível, não devendo deixar de explicar o que se passa mas enfatizando sempre as soluções, os remédios, a alegria de viver e a esperança. Para além de médicos, os médicos não podem deixar de ser também um pouco psicólogos, avaliando os sinais de personalidade que o doente vai dando, as suas forças e as suas fraquezas.

    • Concordo com o que dizes Inês, para além do nível técnico, o médico deve ter o nível psicológico e humano que referes!
      Tal tarefa é colossal!
      (Ainda dizem que os médicos ganham bem!😉


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