Publicado por: Elektro | 27 Março 2010

Acesso à Especialidade 2 – A Mortificação

[Depois de alguns meses cheios, completei entretanto a redacção da trilogia sobre o Acesso à Especialidade que entretanto cresceu para 4 textos que publicarei nos próximos dias]

A maior parte dos alunos começa a sua preparação para a Prova de Seriação Nacional (Exame da Especialidade) 12 meses antes da prova. Os primeiros 6 meses são passados fazendo uma primeira leitura do livro e naturalmente os últimos meses exigem mais dedicação. Dado que todos acabam o curso em Junho e o exame é em Novembro, durante 5 meses, em vez de entrarem no mundo profissional e começarem a retribuir o investimento que se fez neles durante 6 anos, mil novos médicos passam a ser estudantes a tempo a tempo inteiro e com muitas horas extraordinárias. Estudam 8 a 12 horas por dia, queimando pestanas e cérebro com conteúdos e pormenores de valor muito questionável.

Facilmente se compreende que a entrada nesta fase de estudo intensivo, a entrada neste processo de mortificação, têm um impacto psicológico importante em qualquer pessoa, passando por fases progressivas de adaptação psíquica: choque, negação, reconhecimento e aceitação.

Choque. Quando começa a estudar, o jovem médico assusta-se com a dimensão da tarefa com que se depara. Negação. Tenta arranjar alternativas, maneiras de não ter de passar por tal provação. Deixar para o ano seguinte. Ir para o estrangeiro. Escolher uma especialidade de acesso mais fácil… Reconhecimento. A fase mais crítica, arranjar maneira de lidar com a dificuldade, com o medo. Por vezes instala-se a revolta. Há quem não resista, deprima gravemente!… Aceitação. Finalmente, depois de encarar a realidade e a difícil (quase impossível) fuga, inicia o trabalho, hora após hora, dia após dia, mês após mês… Este ciclo muitas vezes repete-se, sempre que o cansaço se instala, um imprevisto acontece ou uma maior dificuldade surge. Ciclo penoso… violento…

Felizmente, a maior parte dos estudantes consegue sobreviver a esta provação e ao mesmo tempo reunir forças e desenvolver qualidades para ultrapassar esta barreira com sucesso. É necessária muita muita disciplina, uma boa dose de organização, uma excelente gestão do tempo, uma excepcional capacidade de compreensão, integração e muita memorização.

Para superar esta tarefa é necessário um sacrifício enorme! Um corte parcial das actividades pessoais, uma inerente redução das relações sociais. Tal situação aproxima-se da violação dos direitos humanos, da tortura. No entanto, todo este sacrifício acaba por ser voluntário e uma opção pessoal, assim, mais do que vítimas, estes mil jovens médicos são mártires de um sistema de selecção impessoal e desumano!


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