Publicado por: Elektro | 4 Abril 2010

Acesso à Especialidade 3 – A Selecção

Deixando a prova e o esforço pessoal para trás, analisemos agora o modelo de selecção dos médicos candidatos a uma área de especialização. Nesta fase da sua carreira o jovem médico já concluí os 6 anos do seu Curso de Medicina, seguido de 1 ano de Internato Geral, ou seja, dedicou os últimos 7 anos da sua vida à Medicina. Como já referi noutros textos, chegado a este momento é confrontado com a inevitabilidade de escolher uma Especialidade para poder prosseguir a sua carreira como Médico a caminho da autonomia total.

Neste contexto, no concurso de acesso à especialidade, fará sentido esquecer todo o percurso do candidato até então? Todos os inúmeros exames, estágios e trabalhos que realizou na faculdade, experiência pessoal e profissional que tenha, formações adicionais, etc., etc.. Segundo sei, apesar de não poder precisar) este método de selecção baseado numa prova única está em vigor há mais de 25 anos! Ano após ano, geração após geração, praticamente todos os médicos que estão no activo passaram por isto!

É do conhecimento geral a dificuldade e questionabilidade do actual método de acesso ao curso superior de Medicina. Pois, incrivelmente, o acesso à Especialidade acenta num modelo ainda mais absurdo!

Naturalmente no intento deste concurso é necessário de alguma forma ordenar os candidatos às diversas especialidades. Fará sentido que isto seja feito a nível nacional para TODAS as especialidades? Não teria mais lógica os jovens médicos candidatarem-se directamente à especialidade que pretendem? Qual é o sentido de um candidato a cirurgião cardio-torácico estar “em competição” com um aspirante a gastroenterologista? Penso que não se pode tratar de pretender aferir a qualidade de médico generalista de tal candidato. Isso seria o descrédito ao método de avaliação e certificação da formação médica pré-graduada. Sendo assim, existe outra hipótese, a da tentativa de homogenização e simplificação na tentativa de uma maior justiça e rectidão de todo processo. Espero que sejam parecidos com estes os motivos por detrás de tão descabido método de aferição (espero que não seja apenas facilitismo ou comodismo de quem coordena este concurso).

Não faria muito mais sentido os hospitais que abrem vagas de formação específica, poderem seleccionar os candidatos de forma mais humana. Nem parece estármos nós a falar de Medicina, uma ciência que deve contemplar de forma fulcral a humanidade. Poderia naturalmente haver alguma definição de critérios pela tutela, a Administração Central do Sistema de Saúde, digamos, uma pré-selecção, baseada, por exemplo, na nota de curso e nota de uma prova geral (para diminuição da eventual disparidade de notas entre faculades). Mas parece-me óbvio que o caminho terá de passar também por outros critérios, nomeadamente uma entrevista pessoal e uma avaliação de outros componentes curriculares (como experiência profissional, estágios extra curriculares, formações adicionais, etc.).

Reparemos no seguinte, o concurso em questão irá definir os próximos quatro a seis anos de convivência diária do candidato com a equipa que irá integrar. Não será sensato que as pessoas se conheçam antes de assumirem um compromisso desta dimensão? Se é assim no mundo empresarial, porque se desumaniza completamente uma “empresa” que tem uma missão tão humanitária como um hospital? Uma entrevista em que o candidato se dá a conhecer e fica a conhecer quem o contrata facilmente poderia colmatar esta grande lacuna.

No país em que vivemos, basta passarmos os olhos pela imprensa dos últimos tempos para percebermos a importância que o “tráfico de influência” infelizmente ainda tem na nossa cultura. Assim naturalmente será pertinente questionar se a introdução de uma componente fortemente subjectiva no processo de selecção não será demasiado arriscado, ainda para mais numa área profissional em que existe bastante “clubismo”. Em resposta a isto transcrevo a opinião do (polémico) Cirurgião Manuel Antunes a propósito da gestão de pessoal: “Com a actual legislação, o director do serviço é praticamente obrigado a servir-se com aquilo que lhe chega. A começar pelo facto de que não tem qualquer interferência na escolha dos internos da especialidade, exemplo único em todo o mundo desenvolvido e especialmente na Europa Comunitária, os directores de serviço vêem-se forçados a manter no serviço muitos, se não todos os seus formandos, até porque, em muitas situações, não o fazer seria condená-los ao desemprego. (…) Não será fácil, de um momento para o outro, alterar a mentalidade das escolhas favorecidas, de elementos menos capacitados para a tarefa em causa. Mas muito pior solução é a actual.” in A Doença da Saúde, 2001.

Apesar de ser uma solução arriscada, não posso deixar de concordar com esta perspectiva. O caminho tem de mudar! Temos de deixar de passar um atestado de incompetência às nossas faculdades. Temos de valorizar o percurso do candidato. Temos de respeitar a sua vocação e preferência pessoal. Temos de deixar de ser um país de “amigalhaços”. Temos de acreditar que quem faz a selecção, o faz, não a favor dos seus interesses pessoais, mas a favor da sua Instituição.

Imaginemos um Director de Serviço que faz entrevistas a candidatos para uma posição de cirurgião no seu serviço. Quem irá ele seleccionar, um candidato dinâmico com uma excelente média de curso, com vários estágios e formações extra-curriculares, várias cartas de recomendação, que lhe dá boas garantias de ser trabalhador e uma mais valia para a sua equipa, ou um sobrinho que fez “apenas” o curso de medicina e que é filho de um médico reputado? Neste momento o leitor está a pensar: “no nosso país, claramente o sobrinho!” Pois o problema está precisamente aqui. Enquanto a nossa cultura e a nossa cabeça estiverem formatadas para pensar assim não será fácil um modelo subjectivo ter sucesso. No entanto, se pensarmos na tendência para a gestão privada da saúde, reparamos que há uma tendência para os serviços se tornarem mais profissionais, isentos e preocupados com uma melhoria dos recursos. Nesse momento talvez a rectidão do bem da instituição se sobreponha a influencia familiar…

A privatização da saúde poderá ter inúmeros malefícios, mas se no aspecto da contratação de pessoal a tornar mais parecida com uma empresa, pelo menos aí ficaremos todos a ganhar!

Segundo sei, está em estudo uma solução alternativa para o método de selecção para a especilidade. O conteúdo da prova irá finalmente ser reformulado. Como se deduz do que disse anteriormente, se for apenas isto, será substancialmente insuficiente!…


Responses

  1. Tens que enviar estes textos para o Ministério da Saúde! Mesmo para quem está de fora, como eu, percebe o absurdo dos métodos e a premência da sua actualização. Vivemos tempos que, obviamente, reclamam a valorização do percurso de cada um e, mais do que a sorte ou o azar de acertar ou falhar em cruzes num exame, a polivalência e a vivência dos candidatos a médicos.

  2. Bem, Zeh, devo dizer que em relação ao penultimo paragrafo, sou completamente CONTRA a privatização da saude, os Hospitais Publicos foram construidos pelo estado para assegurar serviços e necessidades de saude que o sector privado não consegiu suprir, contando com a dedicação de profissionais capazes que ao longo das suas vidas deram muito por uma causa maior que é a saude dos portugueses (e não o seu dinheiro…) Sei também que a saúde agora se começa a tornar um sector extremamente apetecivel para essa industria, e que os Hospitais Públicos vão ficar sobre forte ataque, porque como é obvio, quanto pior o serviço destes mais afluencia terão os Hospitais Privados. Assim é previsivel que se assista a uma tentiva de expoliação dos quadros superiores da saude pelas entidades privadas, com o assedio de chorudos ordenados e condiçoes de trabalho semelhantes a um Hotel de 5 estrelas, mas aí os profissionais terão que pensar e optar a que senhor querem servir, se querem dar saude a quem já a tem, ou se querem continuar a contribuir para um mundo mais justo e equitativo, prestando cuidados a quem deles mais precisa. Confio na proverbial sapiência, resiliencia idológica e sentido de missão de que a classe médica sempre deu provas, para sabermos continuar a defender e melhorar aquilo que demorou gerações a construir. Felizmente, nós médicos e restantes profissionais de saúde, servimos um Senhor bem maior que o dinheiro que tudo compra, servimos a Humanidade, e espero que assim se mantenha por muitos e bons anos!

  3. A privatização da saúde é todo um outro tema. Como digo, “A privatização da saúde poderá ter inúmeros malefícios”.
    O que eu foco aqui é a perspectiva da selecção para a especialidade…

    • Sim, talvez…

  4. É preferível um exame que não faz uma triagem perfeita do melhor profissional para cada especialidade do que criar lobbys onde o factor C compromete totalmente a igualdade no acesso à especialidade.

    Quanto a “esquecer todo o percurso do candidato até então”, parece-me que se está também a “esquecer” das diferenças na exigência e a desigualdade nas notas finais, entre as várias escolas médicas.

    O exame de acesso à especialidade está longe de ser perfeito. Contudo, garante igualdade e paridade no acesso à carreira.

    • Em relação ao “percurso do candidato” não me referia só à média final do curso. Aí concordo que há disparidade entre as várias Escolas do país.

      Quanto ao “factor C”, ele já existe para quem o tem, mesmo neste modelo absurdo. Assim sendo, no meu entender, esta prova não garante a “igualdade e paridade no acesso”. É um pouco como o acesso ao Ensino Superior. Nessa altura, temos contingentes, temos colégios de preparação/facilitação, temos transferências… (e isto são apenas os métodos oficiais…)

      O que eu defendo é que cresçamos como povo!

      • Subscrevo, para que o façamos!

        Refiro-me ao factor C no caso concreto. Os casos que refere são relativos a outras problemáticas que não discute no artigo e, por isso, não me referi a elas.

        Indelizmente, não conheço alternativa viável ao actual modelo de acesso à especialidade.

        A mudança de mentalidade é possível mas leva muito tempo, talvez mais do que estamos dispostos a esperar… A revolução tem de começar numa fase anterior da graduação, penso que a prova de acesso é muito pouco relevante em todo este processo de (um dia) ser médico.


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