Publicado por: Elektro | 9 Abril 2010

Encantadores de Serpentes

“Assim vira para a direita e para esquerda… e assim vira para cima e para baixo…” ao dizer isto com a mão esquerda o médico movia agilmente a ponta do tubo preto que segurava na outra mão. Dois focos saiam dos olhos desta fina serpente amestrada e iluminavam a escuridão da sala de colonoscopia, dando-lhe o aspecto de um pequeno animal que explora o ambiente em seu redor…

Entretanto, o Sr. Resinas esperava deitado de lado, contando, entusiasmado, histórias da sua vida. “Naquela altura é que era! Trabalhava na resina, no Pinhal do Rei. Durante mais de quinze anos trabalhei lá, mas depois vieram os Chineses e acabou tudo…”. “Vamos começar o exame, Sr. Resinas!” Como se não fosse nada com ele, o Resinas continuou a contar as suas histórias, como depois tinha ido trabalhar para Santarém, à procura de melhor sorte, como se tinha envolvido numa zaragata com um colega de trabalho, o que tinha sido uma pouca sorte… Enquanto divagava pelas vielas da sua vida, o pequeno engenho descobria o seu caminho pelas pregas e curvas do intestino do Resinas. Insuflando ligeiramente o trajecto à sua frente a pequena serpente ia percorrendo um percurso sinuoso. Aqui e ali o endoscopista tinha de recuar, aspirar um pouco, lavar a lente e retomar o trajecto. Os dois focos na cabeça da serpente permitiam à câmara captar imagens impressionantemente nítidas do interior do cólon do Resinas. Aqui e ali, uma curva mais apertada e as histórias eram interrompidas por um lamento: “Agora está a doer, Doutor!” Rapidamente o médico aliviava a pressão, aliviando a dor do Resinas, dava mais um jeito com as mãos, onde se enrolava a serpente, e esta lá seguia a sua exploração permitindo que as histórias continuassem a brotar da boca do Resinas como cerejas.

Umas quantas peripécias de vida depois… “Pronto! Chegámos ao nosso objectivo, o pólo cecal! Estamos quase a acabar, Sr. Resinas!…” Isto queria dizer que tinhamos o atingido o final do trajecto do endoscópio, alcançando o início do cólon, tendo percorrido todo o trajecto intestinal desde o ânus até à válvula íleo-cecal, ponto de união entre o intestino delgado e o grosso. A observação principal do cólon durante a colonoscopia é realizada durante a remoção do endoscópio. Para isso é necessário que o endoscópio percorra todo o intestino, para depois remover o aparelho, progressivamente e realizar uma observação atenta e completa da mucosa intestinal. O endoscópio assemelha-se a uma mangueira fina, articulada, por onde passam fibras ópticas que conduzem luz até ao interior do corpo, alumiando as suas profundezas. Aqui são captadas imagens por uma câmara microscópica, sendo depois transmitidas para exterior e projectandas num monitor, por onde o médico acompanha o movimento do instrumento e por onde observa e avalia o interior do intestino.

Como se percebe do relato, a colonoscopia pode ser realizada sem qualquer anestesia ou sedação, estando o doente consciente e a acompanhar todo o procedimento. Neste caso o Sr. Resinas demonstra a tranquilidade que pode existir durante um exame. Nem sempre é assim. Um intestino mais sinuoso, um abdómen que já passou por intervenções cirurgicas ou uma maior sensibilidade pessoal, podem tornar este exame mais penoso para o doente. No entanto, à partida, desde que bem mentalizados e tranquilos, todos os doentes podem ser submetidos a este procedimento sem anestesia, evitando assim eventuais complicações que possam surgir pela realização da mesma.

A colonoscopia é um exame invasivo utilizado quando se pretende avaliar o intestino grosso. Isto  pode acontecer quando há perdas sanguíneas pelo anûs e não é possível esclarecer a origem da hemorragia de outra forma. Para além disso poderá ser realizada para avaliação de outras queixas intestinais não esclarecidas por outras vias menos intrusiva. Uma utilização importante desta técnica é  para o rastreio do Cancro do Cólon e Recto. Neste último caso, as actuais normas orientadoras internacionais indicam que tendencialmente todos os adultos devem realizar pelo menos uma colonoscopia total durante a sua vida, idealmente aos 50 anos. Em Portugal as normais actuais indicam que deve ser feita a Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes de 2 em 2 anos a partir dos 50 anos ou, em alternativa, pode ser realizada uma colonoscopia total de 10 em 10 anos. Isto para pessoas sem factores de risco, ou seja, para a maioria da população. Pessoas com maior risco devem fazer programas de rastreio mais apertado.

“Pronto, já acabámos!” e os olhos da serpente voltaram a iluminar as paredes da sala escura. No caso do Resinas o exame foi pedido para rastreio de cancro e não revelou nenhuma alteração. “Já está? Não custou tanto como pensava, mas de qualquer forma ainda bem que só a tenho de repetir daqui a dez anos!…” O médico dirigiu-se à bancada e pousou a serpente que, à retirada das suas mãos, fechou os olhos e repousou inanimada…


Responses

  1. A minha Mãe também teve de fazer uma há uns meses atrás. Ela andava a ter uns sintomas estranhos e acabou por lhe ser detectado um cancro do cólon. Felizmente foi a tempo. Os teus colegas do Hospital dos Capuchos fizeram-lhe uma intervenção cirúrgica retirando-lhe um bocado da tripa e hoje ela cá anda, a queixar-se um pouco dos efeitos colaterais da quimio, mas convicta que o pior já passou🙂

    • Obrigado pelo testemunho!😉
      É por esses casos de sucesso, q exame deve ser feito, sem medo, qdo há suspeitas e na altura prevista para rastreio!
      As melhoras p a tua mãe!

  2. Um procedimento de diagnóstico explicado com mestria.
    Até parece que não custa nada. Sabe-se, no entanto, que é um exame necesário mas muito doloroso. É sempre melhor prevenir que remediar.
    A leitura deste artigo é muito útil nesse sentido.

  3. muito útil


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