Publicado por: Elektro | 8 Agosto 2010

A-tensão!

“Este doutor novo é muito simpático… mediu-me a tensão, auscultou-me… é muito bom médico!”

Os doentes que se dirigem a um médico têm naturalmente a perspectiva de receber a melhor atenção para os seus problemas e a melhor solução para as suas doenças. Se a promoção da saúde é o objectivo final tanto para médico como para doente, as preocupações de cada um e, eventualmente, as prioridades podem não o ser. Isto vem do conhecimento e perspectivas diferentes de ambas as partes sobre a saúde actual e os riscos para a mesma.

O médico começa a avaliação do doente a partir do momento que este entra no consultório. A sua postura, o seu cumprimento, a expressão da sua face. As primeiras palavras e preocupações que transmite. A fluidez do discurso, o olhar, as hesitações, o discurso demasiado parco ou abundante. Depois,  quando o médico formula mais perguntas ou orienta o discurso do doente para alguns pontos que pretende esclarecer, na maior parte das vezes já tem algumas hipóteses diagnósticas formuladas e prioridades estabelecidas. Assim, com a indagação que faz procura clarificar e arranjar elementos que comprovem ou neguem as suas hipóteses.

O diálogo que acabei de descrever sumariza, de forma muito rudimentar, o que em Medicina se designa por Anamnese, que constitui a primeira e fulcral parte de uma história clínica. É a partir desta “conversa” que o médico extrai a essência da sua actuação futura. Quer em termos da observação posterior que fará do doente (designada por Exame Objectivo), quer dos Exames Complementares de Diagnóstico que solicitará.

Toda esta introdução serve para demonstrar que numa consulta, uma boa parte do trabalho médico passa despercebido para o doente. Este por seu lado valoriza muito a observação que lhe é feita. Nomeadamente através da auscultação, palpação e da super valorizada medição da tensão arterial.

A tensão arterial (TA) é um parâmetro vital com uma importância relativa, mas na sociedade é um parâmetro muito badalado. As doenças cardiovasculares são uma, muito importante, causa de problemas de saúde e de mortalidade. Se é verdade que é importante manter a TA controlada (i.e. pelo menos abaixo de 140/90mmHg), é também verdade que as doenças cardiovasculares são multi-factoriais, ou seja, dependem de muitos outros factores de risco, como por exemplo, o peso excessivo, as gorduras no sangue, o sexo, os hábitos tabágicos e alcoólicos. Mais ainda, a TA deve ser medida num estado praticamente basal. Tendo estado a pessoa em repouso, sentada num ambiente tranquilo, durante 5 minutos. Ora um consultório médico não é normalmente um local muito relaxante. É um local onde o doente se dirige normalmente com alguma preocupação e ansiedade sobre a sua saúde. Há também o Síndroma da Bata Branca, situação na qual um doente repetidamente apresenta tensões elevadas nas medições realizadas pelo médico. Nestes casos essas medições são desprovidas de valor e por isso devem ser descartadas.

Como vemos a importância da medição da TA durante uma consulta é muito questionável. [A não ser numa situação de urgência, mas isso é um contexto totalmente diferente…] Assim o que se recomenda a todos os doentes que têm uma tensão elevada e se preocupam em mante-la controlada, é fazerem medições 2 a 3 vezes por semana, a horas diferentes do dia, numa farmácia ou num aparelho que produza valores de confiança. Devem ir apontando estes valores ao longo do tempo e apresentá-los nas consultas médicas. Os valores assim obtidos terão um significado muito superior a uma medição esporádica. [Relembro que o diagnóstico de Hipertensão Arterial é dado só depois de obtidas 3 medições elevadas nas condições adequadas.]

Independentemente da informação recolhida com estes gestos médicos, é incontornável o valor que eles têm para a Relação Médico-Doente. Aproximam as duas pessoas, há contacto físico, há a demonstração de preocupação e de atenção por parte do médico. Há a sensação de conforto do doente por ter sido observado por um médico, que lhe diz que estar tudo bem. Há a realização da projecção do modelo de consulta que o doente tem na cabeça, ou seja, há uma satisfação das suas expectativas.

Este é um ponto fulcral.

Para que as expectativas de ambas as partes possam ser satisfeitas, é importante aproximar a perspectiva do doente da perspectiva do médico. Dar a informação necessária ao doente para que as suas expectativas seja as adequadas. Só desta forma se torna possível partilhar a mesma visão sobre o percurso a percorrer. Percurso este que terá um  objectivo comum, a Saúde.


Responses

  1. Muito interessante o segundo parágrafo sobre a técnica «Anamnese» – a análise dos factores comportamentais, observação dos factores físico-biológicos, a percepção, a intuição…. e só depois o aprofundamento científico.
    É mesmo isso – experiência e atenção!

    • Em abono do rigor e para que fique mais esclarecido, dentro da História Clínica Médica, a Anamnese consiste apenas na entrevista que o médico faz ao doente.
      Academicamente a Anamnese tem uma estrutura formal bem rígida – identificação, motivo e data de internamento, doença actual, antecedentes pessoais, antecedentes familiares. Só depois vem o Exame Objectivo, que dá origem ao Resumo de onde se extraiem as Hipóteses Diagnósticas. A História Clínica continua…
      No entanto, na prática, como descrevi, a colheita da Anamnese é polvilhada por inúmeras observações e o seu direccionamento induzido por diversos conhecimentos conjugados com a experiência – a intuição.

  2. Já tinha saudades das tuas reflexões, coleguinha!


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