Publicado por: Elektro | 30 Agosto 2010

Patinho Feio

À minha frente uma rapariga de dezanove anos com um par de olhos dos mais bonitos que já vi na minha vida. Olhos claros, perdidos entre as tonalidades de castanho e verde. Cabelos lisos, cor-de-mel. Linhas da face simétricas e doces, pele lisa e morena do sol. Dentes brancos brilhantes. Lábios bem desenhados numa boca que se abria, por vezes, num bonito sorriso.

Partilhava connosco os problemas que teve no ano que passou. Na sua ida para Lisboa, para a universidade. Na dificuldade de integração. Dizia que se isolou, que não tem amigos. Que começou a ter problemas com a alimentação. A achar que  comia muito ao fim-de-semana e depois passava a semana a tentar compensar o excesso. Desistiu do curso e voltou para casa por sugestão da mãe e do namorado. Percebemos que é algo mais profundo do que apenas adaptação a uma nova realidade. Percebemos que esta nova realidade veio acentuar algo de errado que já estava subjacente.

Continuamos a conversar, passados alguns minutos a franqueza da minha colega vem ao de cima: “És uma rapariga muito bonita! Tens uma relação peso altura perfeitamente normal. Tens tudo para estares muito satisfeita com o teu corpo.” A rapariga agradece e sorri de forma cumplice. A médica continua: “Imagino que oiças muitas vezes as pessoas te dizerem isto, mas percebo que não acreditas que é verdade…” Mantendo o sorriso doce nos lábios, a rapariga responde: “Pois… é isso mesmo!… É como se uma voz dentro de mim me dissesse que era mentira.”

À primeira vista uma rapariga perfeitamente normal, com tudo para ser feliz. Entrou na faculdade sem perder nenhum ano. Entrou no curso que quis. Apesar do que diz, percebemos que tem alguns amigos, tem namorado e uma relação adequada com a mãe. No entanto a sua percepção da realidade distorce toda esta aparente normalidade, fazendo com que a rapariga se sinta mal, principalmente por ter a percepção que as outras pessoas a acham feia e sentindo-se frustrada com isso. Destacavam-se, por um lado, uma auto-percepção errada e, por outro, a dificuldade em lidar com as frustrações. A distorção da realidade e a frustração, faziam com que se sentisse descontente com o seu corpo, tentando corrigi-lo, como se isso fosse a forma de corrigir a distorção de percepção e de atenuar a sua frustração.

Felizmente no momento desta conversa a rapariga já se encontrava com apoio psicológico, tendo já feito um trabalho importante de recuperação. Mostrava consciência da sua doença, tinha noção do que se passava de errado com ela. Conseguia verbalizar o seu problema. Conseguia perceber parte da sua origem. Falta-lhe ainda a resolução, conseguir deixar de distorcer a realidade. Aceitar-se como é e ganhar resistência às frustrações.

A moda, os actuais padrões de beleza física com que somos bombardeados todos os dias pelos mass media contribuem muito para o eventual estabelecimento desta distorção de percepção, que principalmente afecta as mulheres. Algumas raparigas ficam frustradas por não atingirem os protótipos que lhes são impostos nos milhares de imagens que vemos todos os dias. Algumas ficam tristes, deprimem, outras vão mais além e criam perturbações da sua auto-percepção, entrando em anorexia nervosa ou bulimia, podendo no limite comprometer gravemente a sua saúde.

De quem é a responsabilidade destas situações? Da televisão, das revistas, dos agentes da moda, dos pais que não deram aos filhos ferramentas suficientes para lidarem com as frustrações, de todos os que elogiam os paradigmas de beleza assente na desnutrição das modelos, de todos os que escarnecem dos pequenos excessos de peso e das deformidades físicas de alguém. Em suma, da sociedade, de todos nós!

A vantagem de ser culpa de todos é que todos podemos contribuir para a resolução do problema. Para que não aconteça o absurdo de as pessoas bonitas e fisicamente saudáveis se sentirem mal, chegando ao ponto de desenvolver perturbações psicológicas. O caminho não é complicado, basta passarmos a apreciar a beleza que é cada Ser Humano.


Responses

  1. Ja aqui em Oman ouvi uma amiga dizer uma frase fantastica. Ela disse qq como o que se segue:

    Eu ? Eu sou bonita e tenho um corpo optimo… essas tipas das revistas e que sao fantasticas😛


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