Publicado por: Elektro | 16 Outubro 2010

As Melhores Coisas do Mundo

Vinha enroscado no colo da mãe, entrou sonolento, fitava-nos com os seus olhitos escuros, pesados. Tinha cinco anos, ar triste e doente, não falava, mas também não estava assustado, apenas calado. A mãe contou-nos que andava constipado há uns dias, no entanto, tinha piorado. A febre tinha subido e passara mal a noite, acordando várias vezes. No dia anterior dizia que lhe doía a engolir e vomitou o jantar num acesso de tosse. Desde então não tinha comido nada. Como estava com febre significativa (T=38,5C) deu-se indicação para fazer antipirético e iniciar hidratação oral, devendo ser reavaliado passada meia hora.

Como este, muitos meninos entram todos os dias nas urgências pediátricas por todo o país. Estamos no início da época fria. Com ela as infecções respiratórias multiplicam-se e espalham-se como um rastilho, em particular nas crianças e nos idosos. O regresso às aulas é um factor potenciador das transmissões. A partir de Setembro o número de atendimentos dispara em flecha, atingindo o seu máximo em Janeiro e Fevereiro de cada ano, altura em que o Inverno se impõe, pleno, sem tréguas.

Nesta época o principal motivo de ida à urgência são, sem dúvida, as infecções respiratórias e as gastroenterites. Na sua maioria causadas por vírus que podem afectar os dois sistemas, em simultâneo ou em separado. Eu diria que em Pediatria variantes destas situações perfazem mais de 75% de todos os casos. Nas restantes crianças encontramos quadros tão variados, como variadas são as fases de desenvolvimento do ser humano não adulto, desde o vulnerável período pós-natal, até à conflituosa adolescência, passando por todas as tonalidades de intermédio. Casos como a menina loira, de pele clara, com o corpo cheio de manchas vermelhas de urticária; o menino magrito de olhos azuis que tinha uma pupila maior do que a outra; o rapazito curioso que andou a coçar os olhos depois de ter descoberto a árvore das malaguetas da tia ou o atlético jogador de futebol que sentia o coração palpitar e sensação de desmaio quando estava na sala de aula, perto da ex-namorada. Todo este sortido de situações dão um colorido único à urgência pediátrica.

Tinha passado meia hora, pressionámos o botão do intercomunicador para reavaliar o rapazito da infecção respiratória. Da porta entreaberta vemos surgir um menino com passo decidido, liderando os pais que o seguiam atrás. Entra no gabinete, os seus olhos brilhantes varrem a sala e dirige-se para a cadeira que está à nossa frente, trepa rapidamente e senta-se direito, olhando para nós na expectativa. Era efectivamente o mesmo menino que, há trinta minutos atrás, haviamos visto entrar prostrado ao colo da mãe, mas realmente não parecia. A normalização da febre numa criança com doença relativamente benigna, tem por vezes este efeito aparentemente miraculoso. Esquecem as dores de garganta e os vómitos e voltam a brincar como se nada se tivesse passado.

Numa boa parte das crianças esta é a evolução natural das suas infecções respiratórias. Sendo que a maioria são infecções causadas por vírus, não há tratamento dirigido, não há antibióticos para vírus… Assim, o que se deve fazer é garantir a hidratação e controlar a febre excessiva, vigiando possíveis agravamentos ou complicações da situação. Febres arrastadas que não cedem à medicação, prostração excessiva, dificuldade respiratória visível, são alguns dos sinais de alarme para os quais os pais devem estar atentos e que o médico procura de forma mais sistemática e integral.

Num contexto em que a maior parte dos atendimentos tem uma evolução positiva e um bom prognóstico, a Urgência Pediátrica torna-se um local onde, apesar do stress natural de qualquer serviço congestionado, a alegria e vitalidade das crianças consegue fazer brilhar uma lâmina, que corta por momentos a tensão e descomprime o mais pesado dos ambientes… não fossem as crianças as melhores coisas do mundo!


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