Publicado por: Elektro | 13 Dezembro 2010

Frágil

Pego na alcofa, aconchego-a nos meus braços e sinto o pequeno corpo mexer-se no seu interior. Dirijo-me para a sala de observação. A pequena Matilde entreabre os olhos piscos e vira a cabecita devagar com o passar das luzes do corredor, procurando perscrutar todo o mundo novo que, rápido, lhe passa à frente.

Pouso-a na mesa de observação, desdobro a manta, libertando este Ser Humano minúsculo. Retiro a roupa e vou revelando, aos poucos, o seu pequeno corpo frágil e indefeso. O contacto com o ar tépido da sala retira-a da letargia, começando a explorar o mundo com os seus bracitos, esperneando levemente no vazio, como quem experimenta algo que lhe é novo e estranho.

As minhas mãos imensas envolvem a sua cabecita e palpam o crânio de ossos soltos e maleáveis. Pesquiso as fontanelas e suturas que estão permeáveis, algo fundamental para permitir o correcto crescimento do cérebro, sem restrições, como consciência e alma que se expandem e se enchem de uma nova essência.

Passo as mãos pelo tronco, clavículas, tórax, abdómen globoso e desproporcionado. Desperto-lhe os reflexos vivos, exagerados, como quem ainda não se apercebeu dos limites que agora se lhe impõem. Agarra os meus polegares com força e vontade de quem se agarra à vida, consigo levantar todo o seu peso apenas com a preensão das suas mãos.

Baixo-a na marquesa e deixo-a cair suavemente sobre a manta. Os seus braços afastam-se abertos, com o susto de quem cai num abismo, para rapidamente se fecharem defensivamente. A sua boca abre-se num choro profundo, vibrante, que brota da sua pequena garganta e ecoa pela sala. É a primeira vez que experimenta a frieza racional do Homem.

O exercício que descrevi designa-se por Reflexo de Moro e na pediatria neonatal é importante para verificarmos os reflexos defensivos e simetrias de movimentos e tónus muscular dos membros. A presença destes mecanismos de protecção são essenciais para o pequeno Ser enfrentar o mundo que o rodeia que é imensamente mais hostil do que o ventre que o acolheu durante nove meses.

Volto a baixar as mãos enormes sobre o seu corpo e tranquilizo-a com uma festa e um aconchego breve. Volta a estar calma e atenta, piscando os olhitos e virando a cabeça explorando o mundo com os seus sentidos que despertam.

Com os dois indicadores palpo os pulsos femurais nas pregas das virilhas, transmite-me um palpitar veloz e ritmado de intensidade idêntica à do seu bracito. Observo os seus órgãos pélvicos e, pegando uma coxa em cada mão, faço-as girar de forma suave. Com uma mão pego nela e viro-a ao contrário, ficando a flutuar de bruços no ar, inspecciono o seu dorso simétrico e a sua coluna vertebral. Pego nela direita pelas axilas, baixando-a até a planta dos pés tocar na mesa. Simula um andar que só será capaz de realizar sozinha quando atingir o primeiro ano de vida. Volto a deitá-la tranquila.

Está tudo bem com a Matilde. Mais uma menina que chega, inocente, ao mundo, procurando adaptar-se a uma realidade nova, autónoma e desprotegida. Busca desde logo a satisfação das suas necessidades básicas. Necessidades estas que, em breve, se tornarão desejos, sonhos e objectivos de vida, que, por sua vez, lhe permitirão ser uma mulher forte, saudável e feliz.


Responses

  1. Hello Zezito gostei muito deste texto. Escreves muito bem que até vejo as imagens da tua descrição!! Parabéns….


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