Publicado por: Elektro | 8 Janeiro 2011

Nascidos para Sofrer

O sol ardia através da manga da bata branca que cobria o meu cotovelo pendurado na janela. Um ar quente abafado entrava no carro em baforadas, enquanto ziguezagueávamos pelas ruas labirínticas do bairro. Dirigíamo-nos para casa de uma doente, para uma consulta domiciliária. O fim da manhã, já com o sol bem alto, na época de maior calor do ano, tornava esta viagem árida e desagradável. O termómetro do carro indicava 35ºC.

Percorremos o bairro de moradias pequenas de dois andares, apertadas umas contra às outras lado-a-lado. Percebia-se que eram o resultado de um crescimento espontâneo, improvisado e aumentado até ao limite, como um campo cheio de cogumelos que se empurram uns contra os outros na procura de espaço para os seus chapéus.

Somos recebidos pelo sorriso jovial do Sr. Solnado, um homem de setenta e poucos anos. Entrámos numa casa pobre, degradada, sombra do que teria sido quando nova. Móveis velhos, chão de tábuas rangentes, desalinhadas pelo tempo. Ao lado da porta da entrada um andaime de pilar único, garantia que o chão do primeiro andar não desabava sobre nós. Bonecas populavam as prateleiras e mantinham o seu brilho no meio de toda aquela pobreza. “Ela gosta muita das suas bonecas, querem vê-las?” – e apontava com orgulho para a colecção de bonecas da mulher em exposição por toda a casa. Não parava quieto de um lado para o outro, entusiasmado com a nossa visita. “Pois ela tem estado muito sonolenta e a urina tem um cheiro forte. Vejam!” E com isto foi buscar um balde onde tinha armazenado um líquido escuro e de cheiro fétido. Depois de observarmos a Dona Rosa as hipóteses diagnósticas mais prováveis eram de infecção urinária com desidratação moderada associada.

Uma infecção urinária localizada apenas na bexiga é um quadro relativamente benigno. No entanto, a desidratação tornava o quadro mais grave e preocupava-nos. A Dona Rosa tinha a mesma idade do marido, mas estava bastante debilitada. Tinha Doença de Parkinson já diagnosticada e medicada, mas o seu estado geral estava mais degradado do que essa doença justificaria. Estava sentada num sofá verde-sujo, com uma postura amolecida, dando a sensação de que, a qualquer momento, poderia escorregar para a frente ou tombar para o lado. Mexia-se mas com uma fraqueza muscular franca. “Põe-te direita! Vê lá se queres que te dê uns açoites!”. O sorriso bem disposto e os olhos brilhantes traíam o significado das palavras que dizia, denunciavam o amor de uma relação cúmplice.

D. Rosa articulava as palavras com dificuldade, sem dentes, com a boca muito seca. Quando falava parecia que a língua se enrolava e se colava ao céu da boca. Demos orientações para fazerem análises à urina. Instituiu-se antibiótico e deu-se indicação para irem fazer hidratação endovenosa ao Centro de Saúde. Era claro que não estavam a conseguir dar-lhe a água que ela precisava.

A D. Rosa negava sede. O marido diz que insistia para ela beber mas ela recusava. Compreende-se a dificuldade do Sr. Solnado. Reformado, com todas as tarefas domésticas a seu cargo e ainda ter de cuidar da mulher doente e insistir para que a ela bebesse água…

Estávamos nós para sair quando entra um dos filhos, jovem, entre os 20 e os 30 anos, parecia disponível e capaz. Das palavras trocadas, rapidamente percebi que, apesar da sua boa vontade, lutava ainda com uma reabilitação do consumo de drogas pesadas. Mais tarde fiquei a saber que a sua guerra ainda estava longe de estar ganha… Era provável que ainda consumisse. Pior, o Sr. Solnado tinha um outro filho. Filho esse também consumidor de estupefacientes. Quando lhe perguntámos se o segundo filho ainda consumia, ele respondeu: “Ele recebe o subsídio de desemprego, passados cinco dias já não o tem… Faz uns biscates, ganha uns trocos, mas anda sempre a pedir-me dinheiro!…” Termina a frase com o sorriso irónico, mas genuíno de quem conta uma anedota.

Dias mais tarde, por volta das 10 horas, apareceram no consultório. O Sr. Solnado conduzindo a cadeira de rodas com a desenvoltura de um piloto de rallies. Com um olhar matreiro atira, “Bom dia Sr. Doutor, já fez as suas compras hoje? Eu já!” Fazia referência ao facto de o ter encontrado dias antes no supermercado. Impressionou-me, desde o primeiro momento, o dinamismo de um homem que tinha muito para poder estar triste, cansado, desalentado, mas que falava, sorria e brincava como alguém que tem a melhor e mais tranquila das vidas.

Vinham nesse dia para falar de uma ida às urgências, na véspera. A Dona Rosa continuava sem melhorar. Vimos as análises da véspera, concordámos com a orientação que tinha sido dada no Hospital e reforçámos a necessidade de hidratação oral da senhora. Ainda nos rimos com o Sr. Solnado de alguns episódios que contou no meio da conversa. Mas a Dona Rosa continuava prostrada, com o mesmo aspecto debilitado, com a mesma postura de boneca desarticulada, sem conseguir manter-se direita na cadeira. Despedimo-nos, o casal saiu. A porta fechou-se.

Ficámos em silêncio…

Olho para o lado, os olhos da minha colega estão parados, cheios de mar. Ambos tínhamos ficado com a mesma sensação. A Dona Rosa ia morrer. A violência do contraste entre o bom humor contagiante do Sr. Solnado e o horror da intuição que tínhamos quebrava-nos por dentro. Enquanto enxuga as lágrimas a minha colega suspira: “há pessoas que nascem para sofrer…”. O Sr. Solnado, sofrendo inevitavelmente, é exemplo imenso de atitude perante as dificuldades da vida, exemplo de amor a toda a prova, “…na saúde e na doença…”. Valor colossal de alguém que, no meio das maiores dificuldades, se ri e mantém o espírito lutador e positivo.

Bem haja!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: