Publicado por: Elektro | 23 Março 2011

A Incisão

Depois da passagem suave do bisturi pela pele, os bordos da ferida recém-criada, afastam-se mostrando a espessura da derme, branca, onde rapidamente surgem gotículas de sangue que aos poucos se avolumam. Os pequenos vasos sanguíneos lancetados transformam o branco em vermelho vivo, invadindo todo o campo operatório. Com uma pequena compressa o cirurgião faz compressão durante poucos segundos, dando tempo à coagulação para encerrar os vasos seccionados. Retira-se a compressa e a dissecção continua, agora num campo mais limpo e menos hemorrágico.

O percurso de um Cirurgião faz-se progressivamente, passo por passo, seguindo o “caminho das pedras”, conquista atrás de conquista, num ganho progressivo de conhecimentos e aptidões. Como aluno de Medicina, o estudante aprende os preceitos básicos do Tratamento de Feridas, em geral, resultantes de traumatismos ou cortes acidentais. Os conceitos básicos são gerais e intuitivos, consistindo em  Limpeza, Desinfecção, eventual Sutura e Penso.

Depois de dominar estas técnicas essenciais e depois de aprender a técnica de sutura com instrumentos, chega a altura de ser ele a provocar a Ferida, naturalmente com um intuito benéfico subjacente.

Neste momento, vêm à memória do Interno de Cirurgia os Princípios Éticos subjacentes ao exercício da Medicina. Dois deles entram em conflito nesta situação – não maleficência e beneficência. Quando confrontado com uma ferida acidental, o benefício do tratamento das feridas é óbvio. No entanto, o benefício deve sempre ser ponderado quando falamos de um procedimento programado para excisão de uma parte de um organismo aparentemente são e quando isso implica efectuar uma agressão ao organismo. Agressão esta que pode ir de uma pequena incisão cutânea, à remoção de parte ou totalidade de um órgão. Esta ponderação deve ser feita adequadamente e para todos os procedimentos programados.

Mesmo uma pequena incisão cutânea para remoção de um quisto sebáceo (glândula da pele com funcionamento anómalo, mas totalmente benigna) pode ter consequências graves num doente que, por algum motivo, faça medicação oral para anti-agregação plaquetária ou anti-coagulação sanguínea. Um doente que toma estes medicamentos está a interferir nos mecanismos naturais de hemostase do seu organismo, essenciais para controlar os sangramentos. Nesta circunstância uma pequena incisão pode resultar numa hemorragia de difícil controlo, com todas as consequências que isso pode acarretar, altura em que o malefício se pode tornar maior do que o benefício da excisão de uma lesão à partida benigna.

Controlada a hemorragia e transposta a derme, avançamos agora no tecido sub-cutâneo, constituido na sua maioria por pequenos “cachos” de tecido adiposo e alguns capilares. Com um dissector, vão-se afastanto os tecidos e isolando a região a remover. Dissecados os planos profundos a peça cirúrgica desprende-se do corpo que a originou e lhe deu sustento até este momento derradeiro. Removida a peça, é feita uma revisão da hemostase e eventual controlo da hemorragia. De seguida tipicamente procede-se ao encerramento da ferida operatória e o tratamento cirúrgico está concluído.

O corte da pele saudável, apesar de ser um acto cirúrgico vulgar, reveste-se de um debate ético intenso e profundo, basilar em toda a actuação cirúrgica. Assim, a primeira incisão na pele é inevitavelmente uma pedra importante na progressão do Aprendiz de Cirurgia.


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