Publicado por: Elektro | 25 Abril 2011

Quatro Meses

Trrriiimmm… Trriimmm… “Cirurgia, boa noite?” “Doutor, chegou uma ferida profunda da perna.” “Certo… Desço já!” Ainda com o pensamento lentificado, palpo em redor, procurando orientar-me no escuro do gabinete. Eram cinco da manhã. Tínhamos subido para descansar por volta das quatro. Levanto-me, visto a bata e saio. Enquanto espero pelo elevador, os meus olhos vão se adaptando à luz intensa do hall, os meus pensamentos vão ganhando coerência, afastando as teias dos sonhos. Hospital, banco 24 horas, ferida para suturar.

Entro na sala da pequena cirurgia e mando entrar um rapaz, com cerca de 20 anos, tinha-se envolvido numa escaramuça, inevitavelmente por causa de uma rapariga, tendo o rebuliço terminado com a perna do rapaz atravessada numa porta de vidro. Tratei a ferida, que necessitou de um cuidado prolongado, era profunda, havia secção parcial de aponevroses, músculos, tecido sub-cutâneo e naturalmente da pele. Felizmente para o rapaz, nenhuma estrutura importante tinha sido atingida e  mexia a perna e pé sem dificuldade.

O relógio passava das 6 quando terminei, entretanto tinham chegado mais algumas pessoas para atender. A esta hora, numa madrugada de sábado para domingo, no fim da descompressão nocturna, os casos passavam necessariamente por vítimas de confrontos físicos, narizes partidos, feridas ligeiras, nódoas negras, traumatismos ósseos menores. Resultado, quando olhei de novo para o relógio, já eram sete e meia da manhã, aproximando-se a hora da passagem de turno, às oito.

Durante o curso de Medicina e nos estágios que vamos fazendo, temos contacto com a prática, experimentamos e exercemos o ofício, mas sempre de forma algo condicional e facultativa. Só ao chegar o dever, a obrigação e a necessária prontidão do banco de 24 horas, se sente a verdadeira dimensão do que é ser cirurgião geral. A responsabilidade progressiva vai ganhando espaço e tempo. Ocupando a mente de forma consciente e inconsciente. Começamos verdadeiramente a “levar os doentes para casa”. O dever de estudar e investigar sempre, procurando o mais adequado dos tratamentos para cada pessoa que nos procura. Para além de tudo o mais que se aprende constantemente, temos ainda dtambém de aprender a deixar os doentes no hospital, estando, no entanto, disponíveis para os atender “a qualquer hora”. Felizmente, ao fazer-se com gosto, as amarras tornam-se mais leves.

Neste período inicial, o mais previsível também aconteceu. O desenvolvimento teórico, prático e técnico, a sutura de muitas feridas, orientação da entrada e alta de doentes, as primeiras ajudas cirúrgicas, as primeiras cirurgias como cirurgião principal e muitos doentes nas urgências. Experiência prática, envolvência humana intensa, casos dramáticos, complicações, recompensas e alegrias. O arranque da especialidade de Cirurgia Geral.

Tudo isto, em quatro meses.


Responses

  1. Parabéns! Vejo que está a ser mto intenso e estimulante!
    Votos de mtas felicidades e realizações futuras🙂 e mtos momentos de sucesso p as cirurgias!!
    beijinhos
    M.


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